DSLR vs Mirrorless

Atualizado: 29 de Jan de 2021


ilustração demonstrando o funcionamento de uma DSLR e de uma mirrorless

O lançamento da primeira câmera de lente intercambiável sem espelho (MILC, em inglês) ocorreu em outubro de 2008, no Japão. A câmera lançada foi a Panasonic Lumix DMC-G1, uma mirrorless com sensor de tamanho Micro 4/3 (Micro Four Thirds). Passado algum tempo após o começo da popularização do novo formato, cada vez mais pessoas começaram a se perguntar se valeria a pena abandonar as DSLR e partir para as recém-chegadas Micro 4/3. O tamanho e peso extremamente reduzidos em comparação com as DSLR tornava a ideia bastante tentadora. Entretanto, para muitos fotógrafos, alguns obstáculos ainda impediam a adoção de tais câmeras, como a falta de lentes e acessórios, menor qualidade de imagem em situações de pouca luz, desempenho insatisfatório do sistema de foco, visor eletrônico de baixa resolução, dentre outros.


Com o passar dos anos, e o consequente amadurecimento da tecnologia, novas e melhores câmeras foram lançadas. Não só houve o aprimoramento do formato Micro 4/3 (pelas mãos de Panasonic e Olympus), mas também a chegada dos formatos APS-C e Full Frame, trazidos ao mundo mirrorless por outros fabricantes. A Samsung, em 2010, experimentou entrar no mercado de câmeras sem espelho com sua NX10, que trazia um sensor APS-C. Apesar de ser uma boa câmera, não fez sucesso o bastante para que a Samsung continuasse investindo, o que levou a empresa a decidir não continuar concorrendo nesse mercado. Já a Canon, por sua vez, introduziu sua linha EOS M em 2012, e esta persiste até hoje com o lançamento da Canon EOS M50 no início de 2018. O destaque, entretanto, ficou com Sony e Fuji, que fizeram muito sucesso lançando ótimas câmeras APS-C e Full Frame (no caso da Sony). Ambas fizeram grandes investimentos buscando diminuir a distância que existia entre DSLR e Mirrorless, melhorando cada vez mais as características de cada novo modelo lançado.


Mesmo sem uma concorrência direta no ramo das câmeras sem espelho, a Sony não deixou de trazer inovações a cada novo modelo trazido ao mercado, o que tornou possível para ela concorrer com diversas câmeras DSLR da Nikon e Canon. Isso fez com que as duas gigantes passassem a investir pesado em desenvolvimento e pesquisa nos últimos anos, culminando, finalmente, com a recente entrada de Canon e Nikon no mercado de câmeras mirrorless. Até a Panasonic, que por muito tempo se manteve apenas no formato Micro 4/3, está se preparando para lançar sua primeira Full Frame (também mirrorless) em breve. Se você algum dia pensou em mudar de DSLR para Mirrorless, nunca houve um momento melhor para isso. Contudo, é preciso conhecer as vantagens e desvantagens de cada um antes de tomar tal decisão.


DSLR - Vantagens e Desvantagens


Houve uma época em que o sistema predominante era o TLR (Twin Lens Reflex), no qual a câmera possuía duas lentes: uma para fazer o enquadramento e outra para captura. Posteriormente, um novo sistema ganhou popularidade, o qual usava apenas uma lente, tanto para enquadramento quanto para captura. Esse sistema era o SLR (Single Lens Reflex). Nele, a luz entrava pela lente e era refletida (daí o Reflex do nome) pelo espelho para o visor (viewfinder), onde o fotógrafo fazia o enquadramento. Na hora da captura, o espelho levantava e o obturador atuava expondo o filme à luz. Com o surgimento dos sensores tomando o lugar do filme, a sigla recebeu a letra "D" para indicar se tratar de uma câmera digital, nos proporcionando o que hoje conhecemos como DSLR.


Vantagens das câmeras DSLR


Ergonomia - Apesar desse ser um critério um pouco subjetivo, eu resolvi incluí-lo como uma vantagem. Dependerá muito do modelo da câmera, mas de um modo geral, as DSLR possuem um corpo maior, oferecendo, assim, uma pegada mais confortável. Algumas mirrorless, entretanto, estão começando a oferecer uma melhor ergonomia, como as recém-lançadas Nikon Z7 e Canon EOS R.


Autonomia de bateria - Essa é uma vantagem enorme das DSLR, pois seu visor é ótico (OVF - Optical View Finder), recebe a luz refletida pelo espelho dentro do prisma, não dependendo de eletricidade para funcionar. O fotógrafo pode trabalhar a composição até mesmo com a câmera desligada. Isso torna o consumo de energia bastante baixo nas DSLR. As mirrorless e seus EVF (Electronic View Finder), por sua vez, precisam que ser alimentados constantemente pela bateria, tornando o consumo de energia bastante elevado.


Alcance dinâmico - Em tese, possuir ou não um espelho não deveria fazer diferença no alcance dinâmico oferecido pelo sensor de imagem. Entretanto, não é o que se observa na prática em algumas câmeras. Devido ao fato de os sensores de foco (nas mirrorless) ficarem embutidos no sensor de imagem, eles podem aparecer como listras horizontais ao se tentar clarear muito as fotos na edição. Isso não acontece com as DSLR, já que seus sensores de foco ficam localizados na câmara do espelho, funcionando independentemente do sensor de imagem, não interferindo, assim, na formação da mesma. Veja abaixo uma comparação entre a mirrorless Nikon Z7 e a DSLR Nikon D850 em que é possível observar esse fenômeno.



Foco em pouca luz - O sistema de foco por detecção de fase (phase detection), presente nas DSLR há anos, tem evoluído bastante. Dentre as características desse sistema de foco, uma em particular ainda não conseguiu ser igualada pelo sistema híbrido (fase + contraste) das mirrorless: a capacidade de focar em ambientes com pouquíssima luz. Alguns do melhores sistemas de foco da atualidade, como o da Nikon D850 (uma DSLR), são capazes de focar em ambientes com até -4 EV de luminosidade. Para se ter uma ideia, imagine-se no meio de um deserto, na escuridão da noite, tendo o chão iluminado apenas pela lua cheia. Então, -4 EV é um pouco mais escuro que isso. Esse é um grande ponto em favor das DSLR, pois com sistemas de foco capazes de focar em ambientes tão escuros, profissionais como fotógrafos de casamento podem trabalhar sem se preocupar em perder fotos por falta de foco. A título de curiosidade, o melhor sistema de foco de uma mirrorless atualmente é o da Sony A9, capaz de focar até -3 EV.


Desvantagens das câmeras DSLR


Tamanho - O sistema de reflexo (o "Reflex" da sigla) requer a presença de um espelho e um prisma. Para acomodar cada uma dessas peças, uma DSLR sempre será um pouco mais larga e mais alta que uma câmera mirrorless.


Peso - Tamanho maior acaba significando também maior peso. Mesmo que se compare uma DSLR de entrada com uma mirrorless de entrada, ambas construídas com plástico, a DSLR ainda pesará um pouco mais devido ao uso de mais material para cobrir as áreas do espelho e prisma.


Complexidade do sistema de espelho - O que parece simples aos nossos ouvidos quando apertamos o disparador, soando como um mero "clack", na verdade é uma operação relativamente complexa que requer uma sincronia perfeita entre vários componentes da câmera. Em primeiro lugar, o espelho se levanta para que a luz passe para o sensor. Acompanhando o espelho, sobe um espelho pequenino, secundário, que é responsável por refletir a luz que vem da lente nos sensores de autofoco logo abaixo. Em seguida, o obturador se abre, expondo o sensor. Daí em diante, o processo segue em caminho inverso, com o obturador fechando e os espelhos descendo. Veja no vídeo abaixo esse processo em câmera lenta. Da complexidade desse sistema, decorrem as seguintes desvantagens:

  • Batida do espelho: além do som caraterístico do obturador, uma DSLR produz um barulho extra quando o espelho sobe e desce. A intensidade desse som varia de acordo com o modelo da câmera, mas de um modo geral é bastante audível e pode ser um incômodo quando se precisa fotografar em ambientes e situações mais silenciosas, como um casamento ou dentro de um templo com pessoas orando, por exemplo. Os fabricantes tentaram minimizar isso com uma função "quiet", mas sem muito sucesso. Outro problema da batida do espelho é introduzir pequenas tremidas em fotos de longa exposição. Novamente, os fabricantes criaram um modos de evitar ou minimizar esse problema, dessa vez com sucesso, seja na forma da função "Exposure Delay" (retardo na exposição) ou "Mirror Lock-up" (travamento do espelho) que têm por objetivo fazer a exposição apenas um tempo depois que o espelho foi levantado.



  • Taxa limitada de fotos por segundo: apesar de ter evoluído bastante ao longo dos anos, o mecanismo do espelho é composto de várias peças móveis, o que torna muito difícil o seu funcionamento em velocidades muito altas. Não é a toa que até hoje não conseguimos ver as melhores DSLR passarem dos 14 qps (quadros por segundo). Como se pode ver no vídeo acima, demonstrando o processo na Nikon D4, o espelho deve levantar e abaixar 11 vezes dentro de um segundo, com o obturador abrindo e fechando entre cada ação do espelho. Isso requer uma sincronia perfeita entre espelho e obturador para que tudo funcione bem. Agora imagine isso a 20 qps. É quase fisicamente impossível de se conseguir.

  • Caro de construir e manter: como dito anteriormente, o mecanismo do espelho é bastante complexo, sendo composto de muitas peças diferentes. Devido a isso, é mais caro construir e dar assistência técnica em caso de problemas.

Sem histograma no OVF (visor) - Ao contrário das mirrorless, que podem mostrar em seu EVF um histograma em tempo real, as DSLR apresentam no seu visor (OVF) apenas o fotômetro, que pode ser enganado, causando super ou subexposição da foto. Assim, em uma DSLR, a única forma de o fotógrafo ter de que obteve uma boa exposição é checar o histograma ao visualizar a foto na tela traseira. Isso torna o processo de captura um pouco mais lento e desajeitado.


Espelho secundário e imprecisão de foco - Como vimos, por trás do espelho principal existe um espelho secundário que é responsável por enviar parte da luz para o sistema de foco por detecção de fase, no fundo da câmara. O problema é que esse espelho secundário precisa estar posicionado perfeitamente para que o sistema de detecção de fase funcione precisamente. Qualquer desvio no ângulo e distância do espelho secundário para os sensores abaixo fará com que alguns pontos de foco não funcionem corretamente. E isso não é raro de acontecer. Dificilmente uma DSLR vem com todos os pontos de foco 100% precisos. Por exemplo, na minha DSLR eu já percebi que os pontos de foco da esquerda são menos precisos que os da direita.


Detecção de fase e calibragem de lentes - Para se obter foco preciso, além do alinhamento do espelho secundário, também é preciso que as lentes sejam calibradas em sintonia com o sistema de foco da sua câmera. Esse é um procedimento que quase ninguém faz, pois, além de paciência, é necessário equipamento específico. Lentes não calibradas podem apresentar Back Focusing (foco adquirido atrás do ideal) ou Front Focusing (foco adquirido à frente do ideal). Além disso, lentes zoom são um problema, pois sua calibragem só pode ser feita no comprimento focal inicial e final do zoom, ficando todo o resto do intervalo sem calibragem.


Mirrorless - Vantagens e Desvantagens


A incessante busca por inovações tecnológicas proporcionou à fotografia o surgimento de câmeras sem espelhos, o que tornou possível realizar os desejos de muitos fotógrafos. Por outro lado, a nova tecnologia trouxe alguns inconvenientes que antes não existiam. A seguir, falaremos sobre as vantagens e desvantagens desse sistema.


Vantagens das câmeras Mirrorless


Tamanho - Começamos por um ponto que, na minha opinião, é controverso. Para alguns, quanto menor, melhor. Para mim, que tenho mãos grandes, uma câmera muito pequena vira um incômodo. O fato é que com a retirada do espelho e do prisma, muito espaço extra deixa de ser utilizado. A ausência do espelho também possibilita montar a lente muito mais próxima ao sensor, o que torna viável a fabricação de lentes menores, assim como de câmeras menores.


Peso - Com tamanho menor, vem um peso menor. Além da economia de peso decorrente da ausência do próprio mecanismo do espelho e pentaprisma, alguns gramas extra podem ser retirados com o uso de lentes e corpo menores.


Sem espelho - A retirada do mecanismo de espelho trás vários benefícios:

  • Menos barulho: nada de batida do espelho, apenas o som do obturador. Alguns modelos possibilitam desligar o obturador completamente, empregando um obturador eletrônico, o que torna a câmera totalmente silenciosa. Ótimo para aquelas fotos cândidas.

  • Menos vibração da câmera: sem o movimento do espelho, menos vibração é introduzida na exposição. O único componente que pode deixar uma foto levemente tremida é o obturador. Porém, isso pode ser combatido com o uso da função electronic front curtain shutter (EFCS), ou seja, obturador com a primeira cortina sendo eletrônica, função que está presente em várias das mirrorless atualmente no mercado.

  • Mais fácil de limpar: com o passar do tempo, sujeira vai se acumulando sobre o sensor e uma limpeza pode ser necessária. Numa DSLR, é preciso acessar o menu e usar uma função que levanta o espelho para que possamos limpar o sensor. Para isso, é preciso ter uma bateria completamente carregada, assim não há risco do espelho baixar enquanto você ainda está limpando. Com uma mirrorless, nenhum desses problemas existem, já que o sensor já está exposto.

  • Maior taxa de quadros por segundo: como uma mirrorless não precisa lidar com a limitação física da velocidade de atuação do espelho, a taxa de quadros por segundo pode ser muito maior. É fácil para uma mirrorless fazer 9 qps, 12 qps ou mais, bastando apenas poder de processamento e cartões de memória rápidos o suficiente para movimentar tamanha quantidade de dados. A mirrorless mais rápida neste quesito, atualmente, e a Sony A9, chegando a incríveis 20 qps.

Visualização em tempo real - No visor de uma mirrorless, você é capaz de ver em tempo real como ficará a foto após o clique. Então, por exemplo, se você tiver mudado o balanço de branco para uma determinada luz, ao fotografar sob uma luz diferente você verá pelo visor que algo está errado.


Sem problemas de imprecisão de foco - A ausência de um espelho secundário, e sua necessidade de um alinhamento perfeito, elimina problemas com pontos de foco imprecisos. Além disso, os sensores de detecção de fase agora ficam localizados no próprio sensor de imagem, ou seja, no mesmo plano de captura da luz, o que elimina problemas de Back Focus/Front Focus e a necessidade de calibragem de lentes.


Visor eletrônico (EVF) - Esse é um dos pontos que eu mais aprecio numa mirrorless, pois ele oferece funções que eu sempre desejei ter no visor de numa DSLR, como histograma em tempo real e zoom para foco manual. É verdade que muitos visores eletrônicos ainda possuem algumas deficiências, como baixa resolução e lag em ambientes com pouca luz, mas a tendência é melhorar com o tempo. Vejamos abaixo os principais benefícios do EVF em relação ao OVF.

  • Informações sobrepostas: Ao contrário do visor óptico, que exibe apenas o básico como ISO, velocidade do obturador, abertura e fotometria, o visor eletrônico é capaz de apresentar todo tipo de informação útil. Por exemplo, ele pode apresentar um histograma